Quando
Dom Hélder Câmara chegou
a Pernambuco, a 11 de abril de 1964,
para assumir a Arquidiocese de Olinda
e Recife, as relações
entre a Igreja e o governo militar
já não eram nada boas
no Estado. Isto porque Dom Lamartine
Soares, vigário capitular da
arquidiocese, uma semana antes havia
recusado falar em nome do clero e
também não indicou um
outro sacerdote para discursar durante
a Marcha da Família com Deus
pela Liberdade, passeata em comemoração
ao golpe que instalou a ditadura no
Brasil.
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Aliás, Dom
Lamartine foi além: proibiu
que entidades religiosas usassem
bandeiras ou insígnias
durante a passeata e fez com que
fosse lida em todas as paróquias
uma nota do Governo Arquidiocesano
na qual dizia que “antes
de tudo, somos cristãos,
o que implica em deveres de fraternidade
sem exclusões, porque a
lei que o determina é de
sentido absolutamente universal”.
A nota proibia expressamente manifestações
do Clero contra ou a favor do
governo militar que se iniciava. |
Apesar desse clima tenso, Dom Hélder
foi festivamente recepcionado pelas
autoridades governamentais, inclusive
o governador do Estado, em ato público
num palanque armado na Pracinha do
Diário, no centro do Recife.
Mas, em seu discurso de agradecimento,
o novo arcebispo foi logo anunciando
ter “o coração
aberto para os homens de todos os
credos e de todas as ideologias”
e dizendo que ninguém se espantasse
“me vendo com criaturas da esquerda
ou da direita, da situação
ou da oposição”.
Dois dias após assumir a Arquidiocese
de Olinda e Recife, Dom Hélder
lançaria, juntamente com outros
17 bispos nordestinos, um manifesto
à Nação, através
do qual os religiosos afirmavam que
“a Igreja de Deus, no exercício
de sua missão, não está
vinculada a regimes ou governos”;
defendiam modificações
“em nossas estruturas sócio-econômicas”
e pediam que fossem postos em liberdades
“inocentes eventualmente detidos
em um primeiro momento de inevitável
confusão”.
O primeiro grande atrito entre Dom
Hélder e um integrante do governo
brasileiro só ocorreria a 12
de agosto de 1966, quando a imprensa
noticiou a expedição
de duas circulares da 10ª Região
Militar, sediada em Fortaleza, acusando
o arcebispo de demagogo e comunista,
por ele ter criticado a situação
de miséria dos agricultores
nordestinos. Daí para frente,
as desavenças se sucederiam
e logo Dom Hélder assumiria
a condição de representante
da Igreja mais perseguido no Brasil.
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Como represália
a sua atuação à
frente da arquidiocese, Dom Hélder
sofreu de tudo: em duas ocasiões,
por exemplo, teve a sua residência
metralhada por homens encapuzados;
assessores seus foram presos;
um padre foi torturado e morto;
era comum a publicação
de artigos na imprensa classificando-o
de comunista e acusando-o de demagogo. |
E mais: em 1970, quando Dom Hélder
teve o nome lembrado para o Prêmio
Nobel da Paz, o governo brasileiro
promoveu uma campanha internacional
para derrubar a indicação.
A candidatura de Dom Hélder
ao Nobel da Paz foi sugerida pelo
episcopado alemão e pela Confederação
Latino-Americana Sindical Cristã
e, de acordo com a revista Veja, caiu
depois que as autoridades governamentais
brasileiras mandaram divulgar em vários
países um falso dossiê
acusando o arcebispo de pregar a violência.
Na verdade, os militares estavam irritados
com Dom Hélder porque, naquele
mesmo ano, ele havia denunciado, durante
uma conferência em Paris, a
prática de tortura a presos
políticos no Brasil.
O Nobel da Paz de 1970 acabou ficando
com o norte-americano Norman E. Borlaug,
que pesquisava milho híbrido,
e Dom Hélder prosseguiu com
suas pregações. Não
sem novos atritos. E um detalhe interessante
é que, a cada vez que se registrava
um desentendimento entre o arcebispo
e as autoridades brasileiras, surgia
na imprensa nacional um número
sempre crescente de artigos, assinados
por ilustres intelectuais ou jornalistas,
com acusações absurdas
contra Dom Hélder. Exemplos
desse tipo de atitude existem aos
montes.
Um deles é o artigo Que é
que há contra Apipucos, escrito
por Gilberto Freyre (Diário
de Pernambuco, 14/06/1970), através
do qual o sociólogo afirma
que os índices de criminalidade
no bairro eram baixos até que
Dom Hélder “tomou a infeliz
iniciativa de confiar a paróquia
a um estrangeiro fantasiado de padre”.
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No jornal Estado
de São Paulo, 30/06/70,
o articulista Salomão Jorge
escreveu: “Se o Brasil fosse
o que o aloucado padre esquerdista
descreve, um país cujo
governo tortura presos políticos,
nunca estaria em condições
de apresentar os atletas invencíveis
que conquistaram a Copa do Mundo”. |
Para agradar ao governo, a imprensa
brasileira (com raríssimas
exceções) ou condenava
tudo o que Dom Hélder pregava
ou distorcia o seu pensamento.
A 11 de abril de 1969, por exemplo,
o jornal O Globo, do Rio de Janeiro,
publicou a notícia de que o
arcebispo, em uma conferência
em Manchester no dia anterior, havia
recomendado a juventude seguir o exemplo
do conjunto musical inglês The
Beatles, ou seja protestar contra
os falsos valores que moviam a humanidade.
Na mesma edição, o jornal
veiculou o editorial D. Hélder:
Estudantes devem imitar Beatles –
Um Sermão em Manchester através
do qual afirmava que “exaltar
hoje os Beatles é ajudar a
propagar os vícios dos Beatles”
e “nem mesmo o profeta do anarquismo
da juventude, Herbert Marcuse, chegou
ao ponto de pregar o uso de entorpecentes
ao seu público”. |