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UM DURO GOLPE

O mais cruel episódio que atingiu Dom Hélder Câmara durante a ditadura militar brasileira aconteceu na madrugada entre 26 e 27 de maio de 1969, quando o padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto foi torturado até a morte no Recife. O crime, nunca esclarecido, teve o objetivo claramente político de tentar barrar, através da violência física, o arcebispo nas suas ações e pregações em defesa da liberdade.

A macabra lógica dos torturadores era esta: se a eliminação do próprio Dom Hélder não era recomendável porque repercutiria internacionalmente, deixando o governo brasileiro em situação delicada, o caminho era o assassinato de um auxiliar direto da Arquidiocese. Desta forma, deduziam eles, o arcebispo recuaria e o crime não teria grande repercussão porque a vítima, digamos assim, era “menos importante”.

Responsável pelo setor da Arquidiocese de Olinda e Recife que prestava assistência à juventude, o padre Henrique mantinha encontros inclusive com estudantes cassados e, em várias ocasiões, recebeu ligações telefônicas com ameaças de morte. A maioria delas partidas da organização denominada Comando de Caça aos Comunistas (CCC). O padre não se curvou às ameaças e pagou um alto preço por isso.

O padre Henrique foi seqüestrado na noite de 26 de maio, no bairro de Parnamirim, depois de participar de uma reunião com um grupo de jovens católicos. De acordo com uma testemunha, ele acabava de sair do local do encontro, quando foi abordado por três homens armados que o levaram em um veículo de marca Rural, de cor verde e branca. Às 10 horas do dia seguinte, o corpo seria encontrado num matagal da Cidade Universitária.

À época, o governo ainda não havia instituído formalmente a censura à imprensa, mas, mesmo assim, os jornais foram proibidos de noticiar o assassinato do padre. A notícia só foi dada pelo Boletim Arquidiocesano (um informativo mimeografado da Igreja) e lida pelos padres de todas as paróquias recifenses. Cerca de 20 mil pessoas acompanharam o enterro, numa caminhada entre igreja do Espinheiro e o cemitério da Várzea.

De processo controverso e volumoso (dezenas de volumes com milhares de páginas), o caso do assassinato do Padre Henrique foi arquivado e reaberto inúmeras vezes, sem que nada ficasse esclarecido até a prescrição do crime. Um único suspeito foi apontado, o estudante Rogério Matos do Nascimento (que, inclusive, esteve preso), mas as autoridades não chegaram a conclusão nenhuma. Foi mais um crime impune.